Vida de Gato
“O lixo de um é a riqueza do outro” ditado popular
O Maltratado
Ele apareceu em algum momento na rua. Era um gato malhado, pequeno e com o rabo amassado. Ter a cauda defeituosa o deixava em desvantagem; seu equilíbrio era afetado. Por causa disso, não gostava de lugares altos, preferia sempre o chão, era onde estava seguro. Um gato extremamente carinhoso, que se perdeu da família quando ainda pequeno. Mas ainda tinha vividas lembranças do carinho de seus familiares, e das lambidas de sua mãe.
Em um dia de chuva, achou uma abertura no portão e se escondeu em um quintal embaixo de um carro sujo. Ali encontrou comida e descanso, só lhe faltava um local para suas necessidades básicas. Que foi prontamente providenciado por outros gatos gigantes e desajeitados, que vestem roupas e vivem trancados. Cada qual com sua mania — ele pensou.
Foi quando chegou um monstro, um gato laranja, esguio, mais alto e mais forte, consequentemente extremamente violento. Não houve tempo nem para um rugido de submissão. O laranja pulou em posição de ataque contra o menor e medroso gato maltratado. A luta foi feia. Maltratado se borrou de medo. Nunca tinha passado por aquilo, não sabia nem o que tinha acontecido, foi atacado sem chance de represália. Fugiu em disparada assim que encontrou uma brecha. Voltava a ser um gato abandonado. Aqueles dois dias de refúgio eram uma lembrança distante, de dias melhores que nunca voltaram.
O Laranja
Sempre marco minhas brigas nas noites de lua cheia, as fêmeas preferem os mais preparados, os que vencem a batalha, por isso afio minhas unhas diariamente.
Sou o gato Laranja, o alfa, gosto do alto, tomo conta do meu território com carinho, deixo os outros menos afortunados comer da comida dada por meu companheiro esquisito, que religiosamente prove 3 refeições aos meus primos, contanto que eles fiquem do lado de fora do portão — já sou extremamente bondoso por permitir essa algazarra na minha vizinhança.
Moro sozinho, mas esse meu colega gato maior e desajeitado só vive preso dentro de casa e com hábitos estranhos.
Estes meus primos menores moram em vários lugares, me importo com eles, contanto que mantenham distância. Gosto da solidão. Trago minha namorada para minha casa de vez em quando, aqui tenho paz. Dá muito trabalho conquistar esta garota, ela sempre foge das minhas investidas, mas, com jeitinho, já consegui o que queria.
Certa vez, alguém entrou, comeu da minha comida e dormiu na minha cama. Desaforado foi expulso no mesmo minuto, era um gato raquítico, malhado e com rabo torto. Isso sempre acontece, invadem meu território. O que você faria se alguém entrasse na sua casa sem sua permissão? Mas este era um fracote. Se borrou de medo. Da próxima vez vou dar uma chance de fuga, espero que ele tenha aprendido a lição.
Mas ainda tem o Luigi, aquele gato preto mais jovem, que se esconde fácil, entre as sombras. O Luigi está cada dia maior e mais ameaçador, mas por enquanto ele ainda me teme, sempre corre quando me vê. Sei que ele vem aqui às escondidas, come minha comida e deixa o cheiro dele por onde passa. Luigi não me escapará, ficarei de tocaia. Ainda pegarei esse desaforado com a boca na botija.
Este conto faz parte do livro "Contos do Sistema Solar". Quer ler todos? É só conferir aqui no Substack ou no Medium. Se preferir, baixe o livro completo em PDF.





